A adoção de novas tecnologias, a necessidade de ampliar a produtividade e os desafios regulatórios no comércio internacional estiveram entre os principais temas debatidos durante painéis que reuniram representantes do Brasil, Argentina e Estados Unidos. As discussões reforçaram a importância da biotecnologia para o futuro da produção de milho e para a competitividade do Mercosul no cenário global.
Há cerca de três décadas, produtores de diferentes países utilizam a biotecnologia como uma importante ferramenta para aumentar a produtividade, reduzir perdas e tornar a agricultura mais eficiente e sustentável. No entanto, apesar dos avanços tecnológicos, a demora nos processos de aprovação e a falta de sincronização regulatória entre países ainda representam obstáculos para o acesso às novas tecnologias.
Durante o painel “Mercosul no Cenário Global: Estratégias para Manter a Competitividade e a Produtividade”, coordenado por Glauber Silveira, diretor-executivo da Abramilho, o aumento da produtividade foi apontado como essencial diante de um cenário de custos elevados, crédito caro e preços pressionados.

Nesse contexto, o acesso às novas tecnologias torna-se cada vez mais estratégico para o produtor.
Um dos principais pontos discutidos foi a iniciativa conjunta da Abramilho e da Maizar, que encaminharam uma carta aos embaixadores da China no Brasil e na Argentina solicitando maior celeridade na análise e aprovação de novas biotecnologias para o milho.
Segundo Bernhard Kiep, diretor da Abramilho e membro do Conselho da Maizall, a redução da chamada assincronia regulatória é importante tanto para produtores quanto para consumidores. Quando uma tecnologia já foi aprovada e está disponível nos países produtores, mas ainda aguarda autorização em importantes mercados compradores, sua adoção pode ser retardada, assim como os ganhos potenciais de produtividade, eficiência e sustentabilidade.

A experiência dos produtores
A importância da biotecnologia também foi evidenciada no painel “Desafios Regulatórios Internacionais Associados à Biotecnologia”, que contou com a participação de produtores rurais e representantes do setor.
Paulo Bertolini, presidente da Abramilho e membro do Conselho da MAIZALL; Manuel Ron, agricultor argentino; e Andrew Brandt, representante do U.S. Grains & BioProducts Council e produtor rural, compartilharam experiências práticas sobre os impactos da tecnologia na produção agrícola de seus países.

No Brasil, Bertolini destacou a evolução do milho a partir da adoção da biotecnologia, associada aos avanços em genética, manejo e práticas agrícolas. Também ressaltou iniciativas como o Programa Prospera, que demonstram como a combinação entre tecnologia e assistência técnica pode contribuir para transformar a realidade de pequenos produtores.
Desafios além da porteira
Apesar dos avanços, os participantes chamaram atenção para os desafios que ultrapassam os limites das propriedades rurais. Processos regulatórios demorados e decisões tomadas em momentos diferentes entre países podem criar barreiras ao comércio e atrasar o acesso dos agricultores a tecnologias já disponíveis.
A China foi um dos principais exemplos debatidos. Tecnologias aprovadas há anos em países produtores ainda aguardam análise das autoridades chinesas, o que pode retardar sua utilização pelos agricultores e gerar impactos nas relações comerciais.
O México também foi citado como exemplo de como decisões regulatórias podem repercutir no comércio internacional. Restrições relacionadas ao milho geneticamente modificado foram objeto de contestação pelos Estados Unidos no âmbito do USMCA e posteriormente revertidas.
Para Adriana Brondani, consultora da CropLife, o desafio não está apenas nos processos regulatórios. Também é necessário aproximar ciência, agricultura e consumidores, ampliando o diálogo e a compreensão sobre os benefícios e as aplicações das novas tecnologias.
O futuro da inovação
As discussões ganham ainda mais relevância diante do avanço da edição gênica e de uma nova geração de tecnologias que promete ampliar as possibilidades da agricultura.
Além da biotecnologia, os debates abordaram temas como crédito rural, fertilizantes, El Niño e as relações comerciais entre o Mercosul e a União Europeia. Participaram também Federico Zerboni, presidente da Maizar, e Maciel Silva, diretor técnico adjunto da CNA.
Para Brasil e Argentina, a articulação conjunta diante desses desafios é fundamental para fortalecer a posição do milho produzido no Mercosul no mercado internacional.
A mensagem que emerge dos debates é clara: a inovação precisa caminhar no mesmo ritmo da agricultura e do comércio internacional. Superar os entraves regulatórios atuais será fundamental para garantir que as tecnologias disponíveis hoje possam chegar aos produtores e, ao mesmo tempo, para evitar que novas barreiras impeçam o acesso às soluções que estão sendo desenvolvidas para a agricultura do futuro.


