Frete: Agronegócio defende a lei de oferta e demanda

As principais entidades que representam produtores rurais e agroindústrias do país estão se mobilizando para demover o governo de tabelar definitivamente os fretes rodoviários para o transporte de cargas pelas estradas brasileiras. MP estabelecendo regras e valores para esse tabelamento foi assinada ontem pelo presidente Michel Temer em uma tentativa de acelerar o fim da greve dos caminhoneiros.

Reunidos com a imprensa ontem em São Paulo, dirigentes de Sociedade Rural Brasileira (SRB), Associação Brasileira do Agronegócio (Abag) e Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP), além de Abiove (indústrias de óleos vegetais), ANEC (exportadores de cereais), CeCafé (exportadores de café) e CitrusBR (exportadores de sucos cítricos) foram unânimes em afirmar que o tabelamento fere as leis de mercado e causará distorções que afetarão sobretudo pequenos produtores.

“É um modelo de intervenção muito complicado e que gera muita insegurança. Queremos ao menos ter a chance de discutir com o governo como isso vai funcionar na prática. São muitas cargas e muitos caminhões diferentes”, disse André Nassar, presidente da Abiove. “Com a tabela, o governo está repassando ao setor produtivo ajustes que julga necessários no âmbito das negociações com os caminhoneiros”. “A adoção de um frete mínimo é mais complicado do que parece. Poderá aumentar a desvantagem competitiva que o Brasil já tem em relação a outros países exportadores na área de logística”, disse Sérgio Mendes, diretor-geral da ANEC.

“No segmento de café, tivemos muitas intervenções do governo no passado que não deram bons resultados. Sempre causaram distorções”, disse Nelson Carvalhaes, presidente do CeCafé. Para Luiz Cornacchioni, diretor-executivo da Abag, “problemas estruturais não podem ser resolvidos por medidas conjunturais” e o país deveria aproveitar a chance para avançar em uma reforma tributária, como também defendeu Marcelo Vieira, presidente da SRB. Os valores definidos pela MP para os fretes mínimos hoje estão abaixo dos praticados no mercado, o que poderia ser considerada uma boa notícia. Para carnes, por exemplo, foi definido um piso de R$ 0,90 por eixo por quilômetro; para o suco de laranja, R$ 0,70, os caminhões que transportam cargas do agronegócio têm, em média, de oito e 12 eixos.

O problema, reforçaram os dirigentes, é a insegurança. “Em cadeias exportadoras como a nossa, o parâmetro para negociar frete é o preço na bolsa. Se não continuar assim, fatalmente haverá distorções”, disse Ibiapaba Neto, diretor-executivo da CitrusBR. Outro ponto destacado por Nassar é que os preços mínimos para os fretes rodoviários poderão afetar também os ferroviários. Nos tempos do governo de José Sarney, na segunda metade da década de 1980, esse tipo de tabelamento era comum. Tão comum como as negociações de ágios e deságios. Só que nessas negociações grandes agroindústrias e produtores maiores bem como as transportadoras têm mais poder de produtores maiores, bem como as transportadoras, têm mais poder de barganha, diferentemente de pequenos agricultores ou motoristas autônomos.

Fonte: VALOR