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Milho segue tendência e preço recua 20%

Depois de cotações históricas, especialmente no caso da soja que chegou a R$ 51/sc, uma maior produção mundial irá regularizar os estoques. Logo, a grande oferta deprecia os preços

Na região, 80% da safra passada foi comercializada

Seguindo a tendência das demais comodities, nos últimos 30 dias o preço do milho perdeu em torno de 20%. No dia 13 de julho a saca de 60 quilos estava cotada em R$ 26 e hoje está em torno de R$ 21. Uma perda que está causando apreensão aos agricultores, principalmente naqueles que ainda detém estoques, porque estavam apostando num mercado firme, e até mesmo promissor. Mas ao contrário, enquanto que há 45 dias chegou a R$ 28/sc, o clima favorável nas zonas produtoras americanas provocou uma reversão e culminou em R$ 21. Mas também existem outros fatores que estão refletindo na depreciação do preço do grão.

Em nível de mercado internacional, os Estados Unidos estão com expectativa de colher em torno de 305 milhões de toneladas, sendo que 80% das lavouras estão na fase de floração e 20% na fase de enchimento de grãos. E até o momento, as condições climáticas nas zonas produtoras no cinturão de produção americano são boas, com tendência de boa produtividade e boa produção. Já em relação ao mercado interno, está o baixo desempenho das exportações brasileiras, que até o momento chega a 3,31 milhão de toneladas, o que representa 64% a menos do que no mesmo período do ano passado. Além da safrinha brasileira, que está entrando no mercado e, naturalmente, pressiona os preços negativamente, porque são aproximadamente 15 milhões de toneladas que estão sendo colocadas à disposição dos consumidores.

Para o agrônomo da Emater, Cláudio Dóro, no curto prazo a tendência é dos preços baixos permanecerem ou até mesmo recuar mais, em virtude do excedente de produção. “Vemos um cenário para o milho não muito favorável no momento e uma tendência no curto prazo de não haver uma recuperação de preços”, comenta.

Sem margem de lucro

O preço mínimo do milho, estipulado pelo governo federal, é R$ 12 a saca de 60 quilos. Mas se por ventura, a cotação caísse a este patamar, o governo entraria no mercado comprando milho para fazer estoque regulador. Conforme Dóro, o preço mínimo é o mesmo que o custo de produção da safra passada. Por isso, apesar do recuo no preço do grão, comparando o custo de produção do ano passado com os preços atuais, o agricultor ainda tem margem de lucro, até mesmo porque obteve alta produtividade.

Entretanto, se programar a safra futura, os custos estão mais elevados - entre R$ 20 e R$ 21 -. E esse aumento no custo de produção se deve pelo reajuste no preço dos fertilizantes, que na composição do custo de produção da lavoura de milho participa com 40%. “O preço abusivo dos fertilizantes é que vai impactar no custo de produção do milho, elevando o custo de produção de R$ 16 para em torno de R$ 20. E se compararmos os preços atuais de R4 21 com a safra futura, empata. E ai é que o agricultor tem dificuldade em vender, porque não há margem de lucro”, explica.

Comercialização

Cerca de 20% da produção da safra passada ainda não foi comercializada. Mas de acordo com o agrônomo, o Estado tem estoque para pelo menos dois meses. Posteriormente, o Rio Grande do Sul importará o grão para suprir as necessidades, adquirindo do Paraná, Centro-Oeste, Argentina ou Paraguai. Mas como no momento o mercado está abastecido, os grandes consumidores e integradoras têm facilidade em adquirir, mas não estão interessados em ir às compras, como mais um fator que deprecia os preços.

Orientação

O mercado interno está dando sustentação aos preços, porque o consumo pela avicultura vem aumentando. De janeiro a julho, a avicultura consumiu 7,87 milhões de toneladas – um aumento em relação ao ano passado de 6,7%. Mas o mercado internacional está enfraquecido e há um excedente de produção que precisaria ser exportado. Como isso não está ocorrendo, o mercado local está com uma super oferta, já que cerca de 45% do milho safrinha já foi colhido e está estocado.

Próxima safra

A Emater ainda não dispõe de dados oficiais sobre o planejamento da próxima safra de verão. Mas através de contatos com grandes e pequenos agricultores, agentes financeiros, cerealistas e cooperativas, pode-se supor que a agricultura familiar não irá reduzir a área de cultivo, porque o milho é consumido na pequena propriedade. Por outro lado, na média e grande propriedade, onde o milho é produzido para venda no mercado de grãos, observa-se uma pequena retração do grão, por uma questão de caixa. “O agricultor não está bem capitalizado e procura fazer a lavoura que apresenta custo menor. Neste caso, a soja exige menor investimento, devido ao custo de produção ser mais baixo. Por isso, a tendência é de que a soja tenha uma ampliação de área”, acrescenta.

Também tende a ser natural, um menor emprego de tecnologia na formação das lavouras, o que pode implicar em menor produtividade.

Ano atípico

O ano de 2008 pode ser considerado atípico, devido à elevação das comodities e posteriormente, sua queda. Dóro explica que as culturas estão interligadas, porque disputam área, ou seja, quando sobe o preço da soja, o preço do milho tem que subir também porque, caso contrário, o produtor não planta milho. E aumentando o preço do milho que disputa área com o trigo no inverno, automaticamente, sobe o preço do trigo. E ao contrário também ocorre, quando despenca o preço de uma cultura, as demais também recuam. “Com vimos o preço da soja despencar em Chicago, o mesmo ocorreu com o milho, trigo e arroz. E o que surpreendeu, é que justamente tivemos altos preços das comodities, sendo o principal motivo os baixos estoques reguladores mundiais. Como os preços subiram historicamente, principalmente na questão da soja, a situação impulsionou os produtores a investirem em tecnologia nas lavouras americanas e européias, consequentemente, o clima favorável nos EUA e uma previsão de colher 82 milhões de toneladas, a Europa plantou bastante cereal e aplicou alta tecnologia. Aliado a isso, o clima também está beneficiando as plantações da Austrália, Índia, Canadá e Rússia. Todo este cenário fez os preços despencarem, em virtude de que poderá haver uma elevação dos estoques reguladores mundiais”, destaca. Apesar das previsões indicando clima favorável e alta produção, se trata de um cenário de especulação, porque nada está concretizado ainda. Enquanto isso, todos fatores fundamentais são altistas, comparando produção, estoque e consumo.

Novas situações, mesmas experiências

De acordo com Dóro, a impressão é de que o produtor não tirou proveito da história, quando em 2003/04 ele se deparou com preços históricos no caso da soja e, um ano depois caiu pela metade do preço. Nesse ano, a Emater alertou que os preços estavam bons, com margem de lucro de 100% sobre o custo de produção e mesmo assim, muitos deixaram de vender o produto a espera de preços ainda mais altos, o que não se concretizou. E o bom momento de efetuar as vendas passou para muitos, que numa expectativa de maior lucratividade, a fim de liquidar dívidas antigas, não venderam a oleaginosa que hoje está cotada em R$ 38,50, sendo que há mais de um mês e meio a saca chegou aos R$ 51.

(Diário da Manhã – Conexão – Carazinho, Erechim e Passo Fundo/ RS, 13/08/08)

 

 

 
 

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