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Milho transgênico

Resultados agradam produtores

As primeiras safras de milho transgênico atenderam às expectativas de produtores e técnicos quanto ao controle das lagartas. Com isso, apontam mais economia e produção.

Depois de "idas e vindas" e muita polêmica para a aprovação do cultivo de milho transgênico no Brasil, os agricultores colheram entre abril e maio as primeiras safras do chamado

milho Bt. Na região de Bragança Paulista-SP, Balde Branco visitou dois agricultores que se mostraram satisfeitos com os resultados alcançados. Razões para isso: redução de custos da cultura e maior produção, já que as perdas por ataque de lagartas não ocorreram. Também essa é a avaliação de especialistas que vêm acompanhando a utilização de tal recurso em outras regiões, como é o caso dos agrônomos Silvino Moreira e

Rosângela Marucci, ambos da Re-hagro-Recursos Humanos para o Agronegócio.

Em uma avaliação dessa primeira safra de milho Bt, Moreira observa que os produtores que utilizaram a tecnologia de forma correta não precisaram aplicar inseticidas. "Essa opção proporcionou menor índice de espigas perfuradas por lagartas, o que poderia causar entrada de fungos e, consequentemente, grãos ardidos. A comparação de produtividade entre milho não-Bt e Bt fica difícil medir no campo, sem experimentação científica, mas podemos dizer que as lavouras que acompanhamos tiveram excelentes resultados", ele garante. Em relação à redução de custos, graças à vastidão e à diversidade climática e de solo do Brasil, em cada região estão previstos impactos diferentes. Moreira explica que em regiões de baixas altitudes e quentes, como o Norte de Minas, nos cultivos irrigados chegam a ser feitas até 8 a 10 aplicações de inseticidas em milho não-Bt. Por outro lado, em regiões mais altas e com clima mais ameno, conseguem produzir bem com duas a três aplicações de inseticidas em milho convencional.

"O produtor que normalmente faz quatro aplicações de inseticidas, com custo médio de R$ 40 por aplicação/ ha, considerando produto e hora/máquina, gastaria R$ 160 nas operações e ainda poderia ter muitas plantas atacadas no milho não-Bt. Ò custo da tecnologia na safra passada variou de R$ 90 a R$ 100", descreve, observando que esse produtor economizou, no mínimo, R$ 60 por hectare, além de ter tido uma lavoura com potencial de produção de 8 a 10% acima de uma lavoura de milho não-Bt.

"Na safra 2008/09, acompanhamos áreas com milho Bt e não-Bt, lado a lado. No milho não-Bt foram realizadas de quatro a cinco aplicações com inseticidas e no milho-Bt não houve nenhuma aplicação. Com a aprovação da tecnologia da Dow Agroscience, chamada comercialmente de Herculex, haverá um concorrente para o milho YieldGard, da Monsanto. Assim, esperamos ter uma redução de custos da tecnologia, devido à concorrência", admite.

Rosângela, que está estudando, no campo, os efeitos da tecnologia Bt sobre diversos híbridos, observou um aumento significativo de inimigos naturais da lagarta-do-cartu-cho, como tesourinhas, joaninhas, crisopídeos e outros. Em sua opinião, isso aconteceu em função do não uso de inseticidas, que também podem atingir os insetos benéficos, dependendo do produto utilizado. "Assim, alguns produtores que fizeram os primeiros plantios com material Bt, e os últimos, com materiais não-Bt, tiveram menor pressão de lagartas nas lavouras de milho não-Bt, com menor número de aplicações de inseticidas", explica ela.

MONITORAMENTO E ÁREAS DE REFÚGIO - Moreira observa que o papel dos técnicos deve ser no sentido de orientar o produtor a usar correta-mente a tecnologia para que ela não desapareça, devido à seleção de insetos resistentes. Para evitar esse risco, são necessárias ações preventivas, como monitoramento, programa educacional e áreas de refúgios. O produtor não poderá plantar 100% de milho resistente a lagartas, devendo utilizar obrigatoriamente áreas de refúgio.

A recomendação é de que estas devem equivaler a 10% da área total de milho da propriedade e que não exceda 800 m de distância da área com milho-Bt.

Segundo Rosângela, a área de refúgio tem o objetivo de manter em níveis muito baixos o número de lagartas resistentes dentro da população. Tais áreas permitem que, nas redondezas da lavoura, onde foi utilizado o milho-Bt, ocorra uma população de insetos suscetíveis e que estes cruzem com os prováveis insetos resistentes da área com o gene Bt. "Dessa maneira, se obtém uma descendência que mantém uma proporção de indivíduos suscetíveis na população original, evitando o aparecimento de insetos resistentes", diz.

Outro aspecto importante é que se plante na área de refúgio, preferencialmente, o mesmo híbrido utilizado com a tecnologia Bt. Deve ser plantado na mesma época e ter o mesmo ciclo, por motivos de maior praticidade na adubação de plantio, adubação de cobertura, avaliação da produtividade. "O monitoramento é uma importante ferramenta, pois permite avaliar o quanto a tecnologia está sendo eficiente no manejo da resistência e, por fim, o programa educacional levará aos agricultores informações sobre os benefícios sociais e de meio ambiente que a tecnologia proporcionará", observa ela.

Moreira faz questão de lançar um alerta aos produtores no sentido do aproveitamento de todo o potencial que essa tecnologia representa. "Essa é mais uma tecnologia que deverá ser utilizada com critério e cautela, sob pena de ser extinta pelo mau uso. O milho-Bt disponível confere ao híbrido resistência a algumas lagartas, como lagarta-do-cartucho, lagar-ta-da-espiga e broca-da-cana, mas o agricultor não pode se esquecer de que existem outras pragas importantes do milho em algumas regiões que devem ser monitoradas e controladas, quando

necessário", conta.

Por isso, é importante que continue atento ao ataque de outras lagartas (lagarta-rosca, elasmo), coleópteros (besouro verde metálico, brasileirinho, dentre outros), cigarrinhas-das-pastagens e outros sugadores, como percevejo barriga-verde e a cigarrinha-do-milho, que são problemas sérios em certas regiões. "Essas e outras pragas, antes, eram controladas 'de carona' pêlos inseticidas para combater as lagartas. O mesmo vale para regiões com pastagens de gramíneas, com alta suscetibilidade à cigarrinha-das-pastagens".

É importante que o produtor continue utilizando as mesmas práticas culturais e os mesmos produtos para tratamento de sementes, pois em muitas regiões existem pragas, como lagarta-rosca, elasmo, além dos insetos sugadores mencionados (percevejo barriga-verde e cigarrinha-do-milho). Deverá continuar tendo o mesmo cuidado com o manejo pré-semeadura, sempre avaliando as glebas antes da operação de dessecagem, principalmente, aquelas com gramíneas, as quais podem ser hospedeiros alternativos de lagartas para a safra de milho re-cém-instalada. Vale ressaltar que esse ataque de lagartas tem sido sério em algumas regiões, levando até ao replantio em alguns casos.

AGRICULTORES APROVAM RESULTADOS - Na região de Bragança Paulista-SP, a Fazenda Pantaleão e a Fazenda Rosário, entre outras, tiveram parte da área de produção de milho cultivada com híbridos Agroceres com tecnologia YieldGard, da Monsanto. O agrônomo Luiz Gustavo de Oliveira, técnico da Monsanto na região, e Odnei Fernandes, também agrônomo, entomologista e gerente técnico da mesma empresa, acompanharam o cultivo de milho nessas propriedades.

Oliveira informa que na área de sua atuação, que abrange Rio Claro, Jaguariúna, Piracicaba, Vale do Paraíba, Bragança Paulista e Sul de Minas, foram cultivados, na safra 2008/09, cerca de 45 mil ha de milho, sendo que desse total 3 mil ha com milho transgênico, sendo que destes 2 mil ha com a tecnologia Monsanto. Ele explica que a Monsanto licencia o germoplasma do milho YieldGard para outras empresas produzirem sementes de milho híbrido.

Fernandes explica que, além das vantagens na lavoura, o milho utilizado na alimentação humana e animal não traz nenhum risco à saúde. "Os muitos experimentos provaram que não fica nos alimentos derivados do milho, na carne, no leite e no ovo nenhum vestígio do produto transgênico", afirma ele. Em relação ao meio ambiente, além de reduzir drasticamente o uso de inseticidas, o milho Bt tem se mostrado inofensivo a uma grande variedade de insetos, o que exige do agricultor fazer o manejo integrado de pragas, com aplicações específicas.

Oliveira lembra também que para a produção de silagem, o milho Bt também traz vantagens pelo fato de permitir o desenvolvimento de plantas bem vegetadas, elevado volume de massa verde, devido à maior área foliar, boas espigas, livres de micotoxinas e, principalmente, sem resíduos de inseticidas.

Na Fazenda Pantaleão, pertencente ao Grupo Saad, foram cultivados, na safra 2008/09, 320 ha com milho, parte para alimentar o criatório de gado Simental, de dupla aptidão, cerca de 100 cabeças. Segundo Sebastião Francisco, administrador da fazenda, foram plantados experimentalmente 40 ha de milho transgênico, com tecnologia YieldGard. "Conseguimos uma produtividade por ha de 140 sacas de grãos com o milho convencional e 187 sacas com o milho Bt", ele relata.

Acrescenta que na cultura do milho convencional foram feitas as quatro aplicações de defensivos contra lagartas, enquanto a do milho Bt não recebeu nenhuma aplicação. "Como as lagartas não atacaram, não houve quebra de produção, que normalmente ocorre na cultura do milho convencional, entre 20 e 30%, mesmo com a aplicação de defensivos". Cerca de 90% do cultivo de milho é feito no sistema de plantio direto nos meses de outubro e novembro, com a colheita entre abril e maio. Nessa safra, para garantir a fertilidade do solo e dispor de mais uma opção de agricultura, foi feita a rotação com a cultura de soja em 12 ha.

"A ideia é ir aumentando o plantio de soja, pois além de contribuir para a fertilidade do solo e quebrar o ciclo de doenças é uma opção a mais de fatura-mento", cita, observando que da produção de 40 mil sacas de milho, 60% são comercializadas na própria região, para granjas de frango e suínos. Explica que o preço da nova tecnologia eleva o custo geral em cerca de 10%, em comparação ao milho convencional, mas em compensação, economiza com os custos envolvendo aplicações e com o fim das perdas com o ataque das lagartas. Seu plano para a próxima safra é plantar somente o milho Bt, deixando os 10% da área para refúgio, cultivados com milho convencional, conforme exige a legislação.

Já na Fazenda Rosário, o proprietário Valcírio Hasckel cultiva milho, feijão, e cria gado de corte. Há 24 anos como produtor de milho, na safra 2008/09, cultivou 450 ha de milho, sendo destes 100 ha com milho transgênico YielGard. "Foi uma experiência que me deu ótimos resultados. Nessa área não fiz nenhuma aplicação de inseticida para combater lagartas. Calculo uma produtividade de pelo menos 15% maior, em relação ao milho convencional, graças à redução de despesas", diz ele. A produtividade da cultura gira em torno das 130-140 sacas por ha, em áreas de sequeiro.

Há anos que na Fazenda Rosário é utilizada a adubação verde e em boa parte da área é feito o plantio direto. Essas práticas conservacionistas são complementadas pelo manejo cuidadoso de algumas áreas com declive para evitar erosão e manter a estrutura do solo em boas condições para garantir sua fertilidade. Hasckel relata que seu maior problema até então no cultivo do milho convencional sempre foram as lagartas, mesmo fazendo tratamento das sementes, aplicando inseticida de três a quatro vezes. "Mesmo assim, chegava a perder pelo menos 10%, dependendo do grau da infestação", relata.

Considera que, além de todo o custo dessas aplicações, há o impacto no meio ambiente, com a contaminação do solo, do lençol freático e a eliminação dos inimigos naturais das lagartas. Explica que sempre precisou fazer um monitoramento constante da lavoura de milho para detectar a presença das lagartas e tomar o quanto antes as medidas de combate. Isso porque se a lagarta que ataca o colmo pegar o milho mais novo será desastroso para a cultura, pois o inseticida não atinge a parte interna da planta. "Diante disso, minha intenção é aumentar a área de milho Bt e continuar fazendo tudo certo para que se possa usufruir dessa tecnologia por um longo tempo", adianta.

(Balde Branco – São Paulo – SP – Junho/ 09 – Págs. 46 a 49)

 
 

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